domingo, janeiro 06, 2008

Estendo brevemente a mão e pesquiso o ar. Ligeirezas pelas quais me vou dispersando, este dia que gradualmente é a passagem por itens, quase que querendo sintetizar e reduzir a vida... Ao lado, talvez, de maiores desafios - um vislumbre da largura do palco, e procuro agora distrair-me no quarto da maquilhagem. Recordo o que significa fraqueza: não é medo, pois esse é inevitável e ingrediente; nem é ficar aquém, pois que só podemos dar passos, sem garantias de declive e de firmeza que as do solo onde os dermos. Fraqueza é quedar-me recostado na cadeira inconsciente, tricotando esboços de espectáculos, e nunca seus actos de inteireza, repetindo visualizações, mnemónicas de espaços fotografados há muito, querendo cingir-lhes o sentido de presença, repercutir a suficiência que lhes incute a percepção direccionada, coagida pelo hábito, discretamente evitando a sugestão de fins outros onde se pressente o desconhecido, o perigo do desconhecido. Nessas alturas sim, se perde o comando, se perde a personagem, se minimiza inadvertidamente o explorador - e é o arame farpado o cobertor em torno das grandes colinas caiadas de gelo reluzente que há, em nós, por desafiar. São elas mesmas quem reflecte a artificial desatenção e quem, como todas as colinas, lá longe mas de uma imponência incontornávelmente próxima, nos faz sentir, por mais que desviando o olhar, qual a proporção real de ficar. Mostram-nos como é falsa, fútil até, a vida confortável no vale dos caminhos trilhados e dos parques arquitectados. A extensão da cordilheira mostra-nos a imensidão do ser, e é tempo de o relembrar.

Soe o relâmpago! É tempo de afundar as mãos no barro. É tempo de lhe arrancar todos os moldes, com todas as garras, e com todo o direito. Sermos de novo a música, sermos de novo o filme... Mas cantemo-la então! Representemo-lo!

E assim finde épico este apelo ao princípio.